quinta-feira, 20 de julho de 2017

APRENDI

Só aprendi que pedra cortava os pés quando comecei a andar descalço, e assim fui seguindo até encaliçar o solado dos meus pés. Só aprendi que bebida alcoólica embriagava quando tomei àquele porre numa festa de final de ano e pus a culpa numa laranja que nem mesmo provei. Aprendi muita coisa na vida, mas só depois de fazer errado umas três vezes seguidas. Mas afinal, o que mesmo importa, é o que se aprende com os erros. Não que eu nunca tivera acertado algo de primeira, afinal, mas se eu não fosse um pouco teimoso e curioso, nada eu teria feito nessa minha vida tão retilínea e proposital.


Olha que eu acertei beijar na boca de primeira, só não entendia o porquê da língua ser tão ligeira, e não ter aquele sabor de framboesa como dizia os poemas que eu lia durante as madrugadas. Há coisas automáticas, há outras que são naturalmente e outras tantas artificiais. Aprendi tanto com os livros, mas os sabores eu tive na vida, eu tive que testar um por um. E quando Machado de Assis disse: "naturalmente cedo, ou artificialmente tarde e vice-versa" na hora eu não havia entendido o subjugar das coisas ilícitas que só poderiam ser feitas as escondidas, e talvez assim eu não soubesse que a masturbação fosse um exercício tão praticado enquanto o chuveiro desperdiçava tanta água viva pelo ralo do esgoto.

Pois é... O valor de cada aprendizado depende de como vamos aplicá-los, tanto nos sonhos como na realidade. A minha vida real já é um tanto sem graça, e a tentativa de fuga desse ponto morto que aflige a minha realidade constante, já se apaziguou com o "eu" sonhador que já não dorme e se consome por inteiro durante as noites, que agora já são mais frias devido aos ventos que sopram vindos do sul.

Quando cortei os pés de tanto andar por cima das pedras, não sentia dores enquanto o sangue escorria, mas na verdade as dores estavam lá, e eu sabia que elas estavam ali, mas não por mim, talvez por alguém que não estava mais lá, ou que eu não me importo mais. Se eu tivesse acertado tudo numa única vez, e entendido tudo de uma só maneira, talvez hoje eu não soubesse que o beijo e a framboesa não tinham nada haver com a realidade do tocar das bocas e o enrolar das línguas, que por acaso, não precisam ser tão ligeiras.

Não importa o que dizem quando quiserem te ferir, feche os ouvidos e finja-se de surdo, o que não te incentiva não te serve pra nada.

Diário de um Vegetal 

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